UE–Mercosul: acordo comercial amplia a fronteira do mercado segurável
Maior integração tende a atrair grupos europeus e fortalecer ramos ligados a transportes, infraestrutura, crédito e seguros patrimoniais no longo prazo. Por: Regina Zeitoune
O acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul representa um marco de integração econômica com efeitos estruturais de médio e longo prazos. Para o setor segurador, os impactos não se dão de forma automática ou regulatória, mas emergem sobretudo pela ampliação do comércio, dos investimentos produtivos e da complexidade das cadeias globais de valor. Nesse contexto, o acordo tende a expandir o mercado segurável, exigindo maior sofisticação técnica, eficiência operacional e capacidade de gestão de riscos por parte das seguradoras.
Na avaliação da Susep, o acordo não altera, por si só, o acesso ao mercado brasileiro de seguros. Para a autarquia, o acordo UE-Mercosul não produz efeitos automáticos ou diretos sobre os procedimentos de acesso ao mercado de seguros, que permanece sujeito à regulação prudencial e às regras domésticas de autorização e supervisão. Ainda assim, a superintendência reconhece que a maior integração econômica tende a tornar o mercado brasileiro mais atrativo a grupos europeus a médio e longo prazos, impulsionado pelo aumento do comércio e dos investimentos.
De acordo com a Susep, “os efeitos mais relevantes tendem a ser indiretos, concentrando-se em ramos associados à expansão do comércio e do investimento produtivo, como os seguros de Transportes, Responsabilidade Civil, Riscos de Engenharia, Garantia e Crédito à Exportação, além daqueles ligados a projetos de infraestrutura e cadeias globais de valor”. No longo prazo, o fortalecimento da atividade econômica também pode beneficiar os seguros patrimoniais e de pessoas.
Para o economista Gesner de Oliveira, professor da FGV, o acordo atua como um vetor de aceleração da demanda por seguros, um acelerador da economia segurável, porque o crescimento do comércio e dos investimentos injeta fôlego imediato em toda a cadeia produtiva.
Segundo ele, a principal oportunidade está na expansão do volume segurado e na maior sofisticação das coberturas. O risco, por outro lado, está no aumento da concorrência. “O risco reside na concorrência que se torna muito mais acirrada, não necessariamente pela chegada de novas empresas, mas pela entrada definitiva de capacidade técnica e modelos de subscrição globais que antes ficavam retidos nas matrizes europeias”, destaca.
Entre os segmentos mais impactados, o seguro de Transporte de Cargas ocupa posição central. “Do ponto de vista deste tipo de seguro, o acordo entre a União Europeia e o Mercosul tende a ter um impacto amplamente positivo ao estimular o aumento do fluxo de mercadorias e a integração logística entre os blocos”, afirma Marcos Siqueira, presidente da Comissão de Transporte da FenSeg. “A principal oportunidade está na expansão do mercado segurável, com maior volume de cargas, rotas mais diversificadas e operações de maior valor agregado”, acrescenta.
Ao mesmo tempo, uma maior integração eleva o nível de complexidade das operações. “Esse cenário modifica o perfil de risco ao envolver rotas mais longas, operações multimodais e cadeias logísticas mais complexas, o que amplia a exposição a eventos como avarias, extravios, roubos e impactos climáticos”, pontua Siqueira. Isso exige das seguradoras maior capacidade técnica, clareza contratual e eficiência na regulação de sinistros.
RISCO DE INADIMPLÊNCIA
Os impactos e desafios serão sentidos também nos seguros de Crédito e Garantia. Para Márcio Vieira, integrante da Comissão de Crédito e Garantia da FenSeg, o acordo cria um ambiente favorável à ampliação das exportações e à diversificação de mercados.
“O aumento das transações internacionais tende a elevar a demanda por instrumentos que protejam os exportadores contra o risco de inadimplência de compradores estrangeiros. O principal risco está na maior exposição a cenários macroeconômicos distintos, variações cambiais e diferentes regimes legais”, avalia. Para o especialista, o novo cenário reforça a necessidade de análise criteriosa de crédito e monitoramento contínuo dos riscos.
A inovação tecnológica surge como elemento-chave nesse processo de adaptação. “A tecnologia encurta distâncias e resolve as fricções operacionais que costumam travar o comércio internacional”, analisa Gesner de Oliveira. Assim, permite precificação mais precisa, integração com dados logísticos e maior transparência.
No transporte de cargas, Marcos Siqueira reforça: “A digitalização permite maior integração com sistemas logísticos, uso de dados em tempo real e monitoramento das cargas ao longo das rotas, o que melhora a avaliação de riscos e a prevenção de perdas”.
Do ponto de vista regulatório, a Susep destaca que não há necessidade de mudanças estruturais no arcabouço brasileiro. “Não se vislumbra a necessidade de ajustes regulatórios em decorrência do acordo”, afirma a autarquia, ressaltando que o modelo de supervisão nacional já é reconhecido como equivalente ao Solvency II europeu. A atuação integrada da supervisão prudencial e de conduta permanece central para assegurar concorrência saudável e proteção ao consumidor.
Mais do que uma ruptura, o acordo UE–Mercosul representa um teste de maturidade para o setor segurador. Ao ampliar o comércio, os investimentos e a complexidade das operações, a integração entre os blocos reforça o papel do seguro como infraestrutura essencial do desenvolvimento econômico, capaz de dar previsibilidade e sustentação a um novo ciclo de crescimento.





